Não se pode desconjuminar ninguém.

24 novembro 2005

Ponto de inflexão

1º Declaração : "apenas na Cidade do Rio de Janeiro morrem mil civis por ano, enquanto que a polícia norte-americana mata 250 civis por ano - em todo o país. Nenhuma outra guerra moderna tem produzido tantos mortos." - Sociólogo Michel Misse - UFRJ em entrevista no site NoMínimo

2º Declaração: Nunca fui de bater em filho. Eu acho que bater em criança pode criar uma revolta e o filho não se torna seu amigo. Gosto que eles tenham responsabilidade. O dinheiro é duro pra ganhar e fácil de gastar. Desde que eu entrei na Polícia trabalhei em dois empregos. Fui segurança por 22 anos. Era um modo de ganhar um dinheiro extra. Sempre achei que a melhor herança que se pode deixar pra um filho é educação e estudo.

Quando ele passou no vestibular, foi uma barra. A lista de material ficou em 6 mil reais. Era o preço de um carro zero.

Eu havia acabado de tirar um Gol do consórcio e vendi para pagar as despesas. Como o curso era o dia todo não dava pra ele trabalhar. Aí ele montou um laboratório aqui em casa e começou a fazer algumas próteses. Os dentistas daqui gostavam do trabalho dele e chegou muito serviço.

(na manhã seguinte ao crime) eu abri a porta do quarto dele, olhei e notei alguma coisa errada. Perguntei em casa, ninguém sabia. Já comecei a procurar. Primeiro desconfiei de algum acidente de carro. Fui na Dutra, na Ayrton Senna [rodovias e levam ao aeroporto]. Pensei: ele bateu o carro, está em algum lugar encostado. Ao mesmo tempo eu pensava em seqüestro. Jamais eu ia pensar no que realmente aconteceu. Mesmo assim fomos nos hospitais de Guarulhos [município onde fica o aeroporto] e à tarde eu já fui no Instituto Médico Legal [IML]. Rodamos a noite toda. Na quarta-feira fui no IML central, de São Paulo, e expliquei tudo. O rapaz que me atendeu estava todo nervoso na hora.

Na quinta-feira, uma amiga nossa ligou pra lá [pro IML central] novamente e explicou que era um negro de sobrancelha grossa, dentes perfeitos... Como já era outra equipe no IML, o rapaz ficou meio assim e disse que tinha alguém lá, sim. Ela ligou pra gente. [Eu atendi. O cara falou que o corpo com essas características já estava saindo para ser enterrado como indigente, que era pra correr. Eram 3 da tarde e o enterro seria às 7 da noite. Corri pra lá com minha madrasta, Sueli. Não tive coragem de ver o corpo, vi pelo computador e... era ele. Aí tentei me acalmar, minha madrasta me acalmou. Não teve jeito. Ela ligou pro meu pai e disse que infelizmente o Flávio estava lá mesmo, conta Tiago.] Fui pra lá e quis saber o que houve. Me disseram que foi tiroteio com a Polícia. Eu não aceitei. Meu filho tinha uma educação, um tipo de conduta, religioso e de repente vai pegar uma arma e trocar tiro com a Polícia? Pedi o boletim de ocorrência pra ver. O cara não tinha nada. Só sabia a delegacia que foi. Eu estava com um amigo e fomos para a delegacia da Casa Verde, consegui o número do boletim e antes de pensar em enterro fomos direto pra Corregedoria da Polícia.

Joel Sant'Ana, policial aposentado e filho do dentista Flávio Sant'Ana assassinado pela polícia Militar por ter sido 'confundido' com um bandido.
Fonte: Revista Raça Brasil

3º Declaração: “Meu marido ficou o tempo inteiro lúcido e contou como foi abordagem dos PMs”, disse J.. Segundo ela, ao chegar próximo de sua residência e ter se abaixado para pegar um isqueiro caído no chão de seu Gol, o delegado foi abordado. Apesar de ter se identificado e ter saído do carro com as mãos erguidas, segundo contou, ****, que tem 20 anos de experiência, foi alvejado à queima-roupa por cinco ou seis disparos que o atingiram em uma das pernas, no abdome, no ombro e no rosto. “Enquanto caía, ele continuou a gritar para os PMs pararem de atirar, pois era policial”, disse J.. Ainda segundo a esposa, mesmo no solo o policial só foi socorrido após a chegada de uma segunda viatura. “Um dos PMs, que o conhece há mais de dez anos, gritou para seus colegas que eles estavam loucos”, disse. O delegado contou que só então foi “jogado” dentro da viatura pelos PMs, sem nenhum cuidado em relação a seus ferimentos, e levado a um pronto-socorro. “Lá, ele ainda perguntou aos PMs o que eles faziam com os ‘malas’ (criminosos), já que tratavam assim um delegado.”

mulher do delegado Sérgio L. baleado por outros policiais em Carapicuíba, em uma abordagem atrapalhada da PM no dia 22 de novembro de 2005.
Fonte:
Diário de São Paulo

Enquanto tão matando filhos e parentes dos outros, para certos malucos que atuam na polícia, podem até achar que tá tudo bem,

mas quando os caras começam matar seus próprios filhos e parentes, será que não seria hora de refletir sobre a corporação?


resposta abaixo:

Nomínimo: O senhor leciona para militares e policiais civis de várias patentes e escalões. Suponho que se incomodem com informações como essas...(truculência da polícia, excesso de mortos em confronto, etc.)

Michel Misse - UFRJ :E como! Nas salas de aula, os policiais militares são enquadrados, preparados, estudiosos, sérios. Os delegados são indisciplinados, acham que sabem tudo e não estudam; são prepotentes, pedantes e têm o rei na barriga.

1 Comments:

At sexta-feira, novembro 25, 2005, Anonymous Anônimo said...

Que decir, BL?
Mega post à altura da importância gigantesca do tema.
beijos

 

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